sábado, 23 de outubro de 2010

China: Uma fábrica de fortes jogadores?

GM Wang Yue (23 anos):
Pico de Rating: 7253 em 2010.
Rating atual: 2732.
Expectativa de 2756 na próxima lista Elo da Fide.

GM Wang Hao ( 21 anos):
Rating atual: 2724.
Tornou-se grande mestre aos 16 anos.
Expectativa de 2738 na próxima lista Elo da Fide.

GM Bu Xiangzhi
(24 anos):
Pico de Rating: 7214 em 2008.
Rating atual: 2695.
Tornou-se grande mestre aos 13 anos, 10 meses e 13 dias.

GM Yu Yangyi
(16 anos);
Rating atual: 2594.
Entre 2007 e 2010 ganhou 446 pontos de rating, partindo de 2136.
Tornou-se grande mestre aos 15 anos sem ter adquirido títulos de MF ou MI.
Expectativa de 2602 na próxima lista Elo da Fide.
Em 2009 classificou-se para a Copa do Mundo em 2009 e na primeira rodada bateu Sergei Movsesian (2718) que possuia 191 pontos a mais que Yangyi, que só foi derrotado na terceira rodada por Lagrave (2730).

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

GÊNIO OU LOUCO?

Klaus Junge

Torneio de Grandes Mestres 1942. Stoltz – Klaus Junge (à direita)
Jogou torneios vestindo orgulhosamente seu uniforme. (ver foto)

Klaus Junge foi convidado a participar do grande torneio de Praga, substituindo o ex-campeão do mundo, Dr. Max Euwe, da Holanda. Liderava com um ponto à frente dos demais, quando, na última rodada, Alekhine o derrotou, terminando empatado com ele em primeiro lugar.

Klaus Junge nasceu em Concepción (Chile) em 1924 e morreu na Alemanha, em 17 de abril de 1945, na batalha de Hamburgo, a três semanas do final da 2ª guerra mundial. Quando nasceu, a Alemanha se encontrava numa forte depressão econômica devido à derrota na 1ª guerra mundial.

Os historiadores explicam que em função das terríveis sanções dos países vencedores praticamente todo o povo alemão procurou uma saída para a crise mediante a afiliação ao novo movimento nacional-socialista, que posteriormente se converteu no regime de ditadura de Hitler. E parece que esta mania nacional-socialista e a filosofia da raça superior germânica afetou sobremaneira também ao jovem talento do xadrez, Klaus Junge.

Mas comecemos pelo princípio:

Klaus Junge aprendeu a jogar xadrez com seu pai, Otto Junge, que, por sua vez, também era um jogador de grande qualidade. Já no ano de 1938 jogou ao lado de seu pai, no sétimo tabuleiro do Clube de Xadrez de Hamburgo, que chegou a ocupar o terceiro lugar no campeonato alemão por equipes.

No ano de 1941, converteu-se no campeão da cidade de Hamburgo, ganhando todas suas partidas. No mesmo ano, compartilhou o primeiro posto com o conhecido mestre Paul Schmidt no campeonato “pan german”, em Bad Oeynhausen, mas perdeu no desempate.

Não obstante, em 1942, ganhou, isolado na primeira colocação, o campeonato “pan german”.

No mesmo ano, participou do torneio internacional de Salzburgo, ganhando uma partida de Alexander Alekhine, que reproduzimos abaixo, e perdeu outra frente ao então campeão mundial. Finalmente, ocupou o terceiro lugar, depois deste e de Paul Keres, da Estônia.

Alekhine viu em Klaus Junge, então com 18 anos, o seu sucessor lógico no trono mundial. Junge atingiu seu melhor Elo histórico em setembro de 1942, com 2.661 pontos.

Dado que Junge foi obrigado a “pegar nas as armas”, já não pôde participar em nenhum outro torneio.

Quando faleceu, aos 21 anos, era subtenente do exército alemão.

Sua morte parece absurda porque, cercado e instado a render-se, saltou de sua trincheira para gritar: “Sieg Heil!”, e foi massacrado.

Os experts opinam que Klaus Junge foi o maior talento do xadrez alemão no século XX, afora o Dr. Robert Huebner.

Denomina-se Variante “Klaus Junge”a sequência dentro do gambito de dama que posteriormente foi adotada por Botwinnik: 1. d4 – d5, 2. c4 – e6, 3. Cf3 – Cf6, 4. Cc3 – c6, 5. Bg5 – dxc4, 6. e4 – b5...conduzindo em seguida a grandes complicações táticas:

Era considerado um excelente jogador de finais, ganhando boa parte de suas partidas nessa fase do jogo.

Em 1956, aparece publicada uma recompilação de suas partidas com o título de “Das war Klaus Junge” (“Este era Klaus Junge”).

Apesar de todos seus gostos nacional-socialistas, devemos reconhecer a Klaus Junge como um extraordinário talento, e esquecer-nos de misturar a política com o xadrez.


Frank Mayer - Revisado por Joan Canal
Barcelona, Agosto de 2006

Fonte: Wikipedia

Publicado originalmente no site TablaDeFlandes.com.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

JOGO ÀS CEGAS - Parte II

O que dizem os grandes intelectuais sobre o jogo às cegas?

Na Europa do século XVIII, período em que se começava a fomentar as idéias que culminariam com a Revolução Francesa, viveu um dos maiores gênios de todos os tempos: François André Danican Philidor. Philidor nasceu em 7 de setembro de 1726, em Dreux, na França. Foi um menino prodígio que se destacou na Música e no Xadrez. Quando adulto, tornou-se um dos maiores compositores da França e o maior jogador de Xadrez do século XVIII. Na música foi elogiado por Mozart e outras autoridades de grande envergadura. No Xadrez era ele próprio a maior autoridade do mundo.

Philidor foi a primeira pessoa a jogar uma simultânea de Xadrez às cegas perante um público consideravelmente numeroso, sob condições controladas e cujos resultados foram devidamente registrados.

Sua primeira apresentação aconteceu em 1746, no Old Slaughter’s Coffee, em Londres. Desde então, até o fim de sua vida, fez exibições por toda a Europa, mantendo o pleno vigor de suas faculdades mentais até os 69 anos de idade. Entre os que assistiam às suas simultâneas ‘sans voir’, havia renomadas personalidades das ciências e das artes, inclusive grandes celebridades históricas, como Voltaire, Robespierre, Rousseau, Diderot, D’Alembert, Conde Brühl e vários outros membros da nobreza, vários estadistas, cientistas e artistas (possivelmente Franklin e Napoleão, que eram freqüentadores do Café de La Régénce, também assistiram e participaram de simultâneas às cegas com Philidor).

As proezas de Philidor causaram tão grande impressão aos eruditos europeus, que chegaram ser incluídas na famosa Encyclopédie de Diderot e D’Alembert, no verbete relativo ao Xadrez, onde o jogo às cegas foi considerado “Uma das mais fenomenais manifestações da mente humana.”

Philidor também foi citado em jornais de toda a Europa. O periódico inglês World (de 28 de maio de 1783), depois de relatar uma de suas apresentações às cegas, finalizou com os seguintes dizeres: “O ato de Philidor deverá manter-se para sempre nos compêndios históricos, como um dos melhores exemplos de até que ponto pode chegar a mente humana.”

Um cronista que presenciou uma das simultâneas de Philidor, não conteve sua admiração e declarou que assistira a algo que bem podia ser qualificado como “um milagre”. E prosseguiu afirmando que tal proeza situava-se no limiar da capacidade humana, e que seria “impossível” a um ser humano jogar muito mais que 2 simultâneas às cegas.


Nota: é importante esclarecer que passados cerca de 100 anos desde a primeira apresentação de Philidor, o mestre Ludwig-Louis Paulsen encarregou-se de refutar o gentil comentário desse jornalista, tornando-se assim o primeiro simultanista às cegas de grandes proporções. A partir de 1854, em diversas cidades dos EUA, Paulsen enfrentou entre 4 e 15 oponentes. Tendo em conta o espanto causado por Philidor, por ter jogado às cegas contra 2 oponentes, parece-nos justo admitir que a realização de Paulsen é algo verdadeiramente fenomenal, mesmo para os padrões atuais, porque depois das mortes de Janos Flesch (1983), Miguel Najdorf (1997) e Jens Enedvolsen (1980), possivelmente há apenas três pessoas vivas que já jogaram mais de 15 simultâneas às cegas. São o mestre dinamarquês Jacob Oest Hasen, que em 1985 jogou às cegas contra 25 tabuleiros, e os mestres canadenses Hans Rudolf Jung e Leo Williams, que jogaram respectivamente contra 26 e 27 tabuleiros em 1993 e 1986. Portanto o evento a ser realizado no final desse ano não será apenas um recorde brasileiro, mas também o maior evento dessa natureza realizado no mundo nos últimos 9 anos.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

JOGO ÀS CEGAS - Parte I

Fonte: www.sigmasociety.com

O que é ‘Xadrez às cegas’?

No ‘Moderno Dicionário de Xadrez’, do Dr. Byrne J. Horton _ Ph.D. em Filosofia e consagrado enxadrista norte-americano, podemos encontrar a seguinte definição:

“Xadrez Mental ou Xadrez às Cegas – é a arte de jogar Xadrez sem utilizar tabuleiro ou peças. A partida é conduzida sem qualquer espécie de auxílio que possa manter presente a posição das peças. Para garantia da exatidão e referência, registram-se os lances. Este modo de jogar requer uma memória infalível da posição exata de cada peça durante toda a partida, requer excepcionais poderes de concentração e vívida imaginação das alterações que se processam no decorrer do jogo.”


Obs.: a descrição do Dr. Horton é para uma partida individual às cegas. No caso de uma simultânea às cegas, não se joga uma única partida; são muitas partidas de uma só vez, por isso é necessário memorizar e administrar corretamente uma quantidade muito maior de informações. Além disso, os lances ‘NÃO SÃO REGISTRADOS’ em papel ou similar, conforme Dr. Horton sugere. Em vez disso, os lances ficam registrados unicamente na memória. Trata-se, portanto, de uma performance muito difícil, e essa dificuldade se nota tanto pela descrição como pela raridade de eventos como esse.


O que diz a Ciência sobre o jogo às cegas?


O psicólogo francês Alfred Binet tornou-se mundialmente famoso por ter criado os testes de inteligência que posteriormente deram origem aos testes de QI. Em fevereiro de 1891, depois de assistir a uma exibição de simultâneas às cegas, realizada em Paris _ mais precisamente no Café de La Régénce, Binet ficou tão impressionado que decidiu realizar um estudo minucioso a esse respeito.

Depois de cerca de dois anos e meio de trabalho, em junho de 1893, Binet publicou um artigo em que resumia suas impressões sobre o jogo às cegas. Ao longo desses 28 meses, Binet entrevistou dezenas de grandes jogadores, como o aspirante ao título mundial Siegbert Tarrasch e o ex-recordista mundial de simultâneas às cegas Joseph Henry Blackburne. Muitos desses enxadristas chegaram a prestar extensos depoimentos no laboratório de Sorbone, em que descreveram pormenorizadamente o processo de visualização, de memorização, de cálculo etc. Isso permitiu a Binet reunir um vasto material sobre o assunto, a partir do qual pode compreender muitos aspectos sobre a mente do jogador às cegas em particular e a mente humana de modo geral.


Entre outras coisas, Binet constatou que praticamente todo jogador de primeira categoria consegue jogar uma ou mais partidas às cegas (a exceção mais curiosa parece ser o caso do ex-campeão mundial Dr. Max Euwe, que se dizia incapaz de jogar uma partida às cegas).

Verificou-se também que a força de jogo não é necessariamente proporcional à capacidade de jogar um grande número de partidas às cegas. Por outro lado, em se tratando da força de jogo tático e combinativo, a correlação parece ser muito boa: quanto maior o número de partidas às cegas que um jogador é capaz de conduzir simultaneamente, tanto maior é sua força no jogo de combinação.

Binet, Taine e outros pesquisadores do assunto, chegaram à conclusão de que para jogar às cegas sobretudo para jogar um número elevado de simultâneas às cegas, era imprescindível possuir uma excelente memória, muita imaginação, um profundo conhecimento de Xadrez, boa concentração e uma prodigiosa capacidade de abstração. Além disso, o vigor físico e diversas outras faculdades mentais são de grande importância. Sobre o vigor físico, se faz notar sua necessidade principalmente nas simultâneas às cegas de grandes proporções contra 6 ou mais oponentes, em que o simultanista permanece 5, 6 ou até 20 horas seguidas numa posição quase fixa, muitas vezes com a musculatura tensa.

Em seu artigo, Binet expressa muito bem que durante uma simultânea às cegas não basta memorizar todos os lances de todas as partidas, o que não exigiria muito mais do que memorizar um número com 800 ou 1000 algarismos. Para jogar uma simultânea às cegas é necessário memorizar cada um dos diagramas que se sucedem no decorrer das partidas, pois a avaliação e o cálculo não são possíveis tomando-se por base unicamente a notação dos lances; é preciso “enxergar” os diagramas, com o tabuleiro e todas as peças (não necessariamente num quadriculado, mas é preciso saber todos os pormenores sobre como as peças estão interagindo). Isso corresponderia a memorizar um número com 10.000 ou 15.000 algarismos.

É importante ter em mente que essa estimativa está considerando apenas os lances efetivamente executados, sem levar em conta as variantes e sub-variantes que afloram e desaparecem na mente do simultanista durante as partidas, muitas das quais permanecem na memória até algumas semanas depois de concluída a exibição, mas não aparecem concretamente e por isso quase poderiam deixar de serem computadas nesse cálculo. Sob esse ponto de vista, pode-se dizer que jogar uma simultânea às cegas contra 8 ou 10 oponentes equivale a memorizar um número com cerca de 1.000.000 ou 2.000.000 algarismos.

Mas essa não é uma comparação fiel, já que os números aleatórios são mais difíceis de serem retidos na memória do que os lances e diagramas de Xadrez. Uma analogia mais próxima seria o equivalente a aprender idiomas. Uma simultânea às cegas como a de Najdorf, jogada em 1947, foi equivalente a aprender três idiomas inteiros e fluentes em um só dia! Isso proporciona uma idéia mais próxima do real grau de dificuldade, pois aprender idiomas, do mesmo modo que jogar às cegas, é mais fácil que memorizar números aleatórios. Convém esclarecer que jogar às cegas e aprender idiomas envolvem habilidades distintas, portanto se uma pessoa aprende um idioma em um dia, não significa que será capaz de jogar 15 simultâneas às cegas, do mesmo modo que uma pessoa que joga 15 simultâneas às cegas não será necessariamente capaz de aprender um idioma em um dia.

Aprender três idiomas num dia ou jogar 45 simultâneas às cegas é mais fácil que memorizar 12.000.000 de algarismos aleatórios, mesmo assim, é indiscutível que essas três realizações constituem proezas extraordinárias e situam-se no limiar da capacidade humana. Prova disso é que já se considera extraordinário jogar uma partida às cegas, aprender um idioma fluente em um mês ou memorizar um número de 1.000 algarismos aleatórios, e apenas três pessoas na história da humanidade (Miguel Najdorf, George Koltanowski e Janos Flesh) foram capazes de jogar 45 ou mais simultâneas às cegas, somente uma pessoa teve a capacidade de aprender um idioma em um dia (William James Sidis) e somente uma pessoa foi capaz de memorizar mais de 40.000 algarismos aleatórios (Hiroyuki Goto).